quarta-feira, 25 de março de 2026

Ninguém precisa seguir um padrão. Ninguém precisa se comparar aos outros. As pessoas precisam ser elas mesmas, é isso que encanta e dá sabor à vida…

 


“Cristiane a minha mãe está viúva há dois anos, ficou casada mais de vinte anos com o meu pai. E agora resolveu arrumar uma namorada, quase da mesma idade que ela. Ela sempre foi lésbica? Tem cabimento isso?”

Olá… Então, minha querida, eu entendo perfeitamente a sua preocupação, e talvez a sua frustração, mas tente entender uma coisa… Eu acho tão lindo quando as pessoas assumem a própria verdade, dignidade e respeito por si mesmas, pois não é fácil num mundo tão cheio de preconceitos, tabus, julgamentos e moralidade. E é necessário muita maturidade para esses enfrentamentos, além de autoconhecimento, ter consciência dos próprios valores, sentimentos, das consequências disso e de se libertarem dos julgamentos dos outros e o próprio (que muitas vezes é bem mais cruel)… então, é um caminho árduo e nada fácil, se despir de todas as máscaras e assumir-se quem se é! Pois, é necessário muita força e coragem! Minhas palmas para a sua mãe! 👏👏🫶🏻

 Sabe, muitas vezes o ser humano pode tornar-se intolerante sem se dar conta disso. Por exemplo: Se eu defendo respeito, igualdade, dignidade e direitos… mas, quando o outro vai exercer esse papel, eu discordo dele, há uma incoerência nisso. Você não acha? Reflita sobre isso. E quer saber mais? A sua mãe não tem nenhuma obrigação de te explicar nada… nem suas escolhas, decisões, preferências, sonhos, desejos, aparência, a vida é somente dela, então, sua mãe, meu amor, não lhe deve nada…  Quer ajudá-la? Então, respeite, acolha e dê amor. Faça o seu melhor. 

Não dá para dizer x e se comportar como y. As pessoas tem o direito de ser quem são, porque se não for assim… elas adoecem. Por isso, eu repito aqui: sua mãe está vivendo em congruência com o que ela acredita, sente e faz. Quantos vivem por aí, sem essa coragem? 

Ela quebrou tabus… e isso incomoda e choca as pessoas. Talvez, para você seria menos sofrido, se ela não tivesse tirado as máscaras, ou não tivesse descoberto novas formas de viver a própria vida. Porém, a vida é dela e ela tem esse direito, de viver da forma que quiser. Se ela continua lúcida, trabalhando e vivendo a vida dela, não vejo problema nenhum nisso. O único problema aqui é o preconceito, querer controlar a vida do outro e não aceitar que o outro tenha mudado seu jeito de pensar e agir, perante o mundo. Essa diversidade precisa ser respeitada. Se você não aceitar isso, você vai sofrer e muito, pois nem tudo na vida é conforme a gente quer ou deseja. 

Situações como essa parecem, à primeira vista, uma reviravolta brusca no roteiro da vida, quase como se alguém tivesse mudado de personagem no meio da peça. Mas, quando olhamos com mais atenção, percebemos que a sexualidade humana raramente é tão fixa e previsível quanto os rótulos sugerem ou quanto acreditamos.

Uma primeira possibilidade, é que sua mãe  sempre tenha sentido atração por outras mulheres, mas nunca tenha reconhecido ou permitido que isso viesse à tona. Durante décadas, muitas pessoas viveram em contextos sociais onde a heterossexualidade era considerada o único caminho aceitável. Ou seja, muitas mulheres foram socializadas a acreditar que amar homens não era apenas uma escolha comum, mas uma obrigação cultural. Nesse cenário, casar-se com um homem, não significa necessariamente ausência de outras orientações, mas sim adaptação ao que era imposto e esperado.

Outra explicação possível é que a orientação sexual não é uma linha reta imutável, mas um campo mais flexível, capaz de mudar ao longo da vida. Não se trata de “virar” algo de repente, mas de uma reorganização de desejos e afetos que já tinham potencial para existir. Por exemplo: a sexualidade feminina pode ser mais sensível ao contexto emocional e relacional do que a masculina.

Também existe o fator da liberdade tardia. Após vinte anos de casamento, a identidade de alguém está profundamente entrelaçada com papéis sociais: esposa, mãe, parceira, cuidadora. A viuvez, apesar da dor, pode funcionar como uma ruptura estrutural nesses papéis, abrindo espaço para uma redescoberta pessoal. O sociólogo Anthony Giddens, ao falar sobre a modernidade e os relacionamentos, descreve como as pessoas, ao longo da vida, passam por processos de “reflexividade do eu”, em que reavaliam quem são, o que desejam e quais histórias querem contar sobre si mesmas. E segundo Giddens, o nosso “eu” nunca é estático, ele vai se reorganizando, moldando, conforme as experiências da vida.

Há ainda um ponto importante: orientação sexual não é apenas sobre com quem se dorme, mas sobre com quem se cria vínculo emocional profundo. Algumas mulheres relatam que, após a morte do marido, ao se aproximarem de outras mulheres em contextos de apoio emocional, amizade ou luto compartilhado, perceberam sentimentos que nunca haviam nomeado. Não porque esses sentimentos não existissem antes, mas porque nunca tiveram espaço seguro para serem percebidos.

Freud, apesar de suas limitações e críticas, já dizia que a sexualidade humana possui uma dimensão potencialmente bissexual em sua origem, e que a cultura, a educação e as experiências vão moldando como esse potencial se expressa. Hoje, muitos psicólogos não adotam essa teoria freudiana literalmente.

Então, quando alguém que foi casada por décadas com um homem, passa a se relacionar com mulheres, não há uma única explicação universal. Pode ser: uma orientação lésbica ou bissexual que sempre existiu, mas foi reprimida ou ignorada. Uma sexualidade fluida que mudou com o tempo e as experiências. Uma descoberta tardia possibilitada por novas condições de liberdade emocional, financeira e social. Ou uma combinação de tudo isso.

O mais importante é entender que isso não é necessariamente uma “mentira” vivida no passado, nem uma “confusão” no presente. Pessoas podem amar sinceramente em diferentes fases da vida e, ainda assim, descobrir outras formas de amar depois. A identidade humana não é um bloco de pedra esculpido na juventude; é mais parecida com argila que continua sendo moldada pelas mãos do tempo, das perdas, dos encontros e das perguntas que só surgem quando a vida nos obriga a recomeçar.

Esse tipo de história provoca curiosidade porque desafia a narrativa simples que aprendemos desde cedo: a de que a orientação sexual é fixa, clara e revelada ainda na juventude. Quando alguém passa décadas em um casamento heterossexual e, depois da viuvez, se envolve com mulheres, parece que houve uma virada dramática de roteiro. Mas, na realidade, pode ter sido apenas o momento em que uma história interna finalmente encontrou espaço para ser vivida.

Um conceito muito útil para aprofundar essa discussão é o de identidade narrativa, trabalhado pelo filósofo Paul Ricoeur. Ele defendia que nós construímos quem somos como quem escreve um romance sobre si mesmo, reinterpretando o passado à luz do presente. Isso significa que a pessoa não está apenas “mudando de orientação”, mas reorganizando a própria história, reinterpretando sentimentos antigos que talvez, na época, não tinham linguagem para existir. O passado não muda, mas o significado que damos a ele pode mudar profundamente.

Adrienne Rich, ao falar de heterossexualidade compulsória, destacou que muitas mulheres não apenas se relacionavam com homens por pressão social, mas também porque lhes faltavam modelos de vida alternativos. Em outras palavras, não é que essas mulheres “sabiam e esconderam”; muitas sequer tinham as ferramentas culturais para reconhecer a possibilidade de desejar outras mulheres. Sem exemplos, sem vocabulário, sem validação social, certos sentimentos passam despercebidos, como estrelas que estão no céu, mas invisíveis em uma noite cheia de luz artificial. 

A psicóloga Lisa Diamond foi ainda mais longe ao estudar mulheres que mudaram de identidade sexual ao longo da vida. Ela observou que algumas dessas mulheres não relataram ter escondido desejos por mulheres no passado. Em vez disso, elas descreviam uma sensação de descoberta genuína, como se novas formas de afeto surgissem em resposta a novas relações específicas. Diamond chamou isso de “plasticidade erótica”, uma capacidade de resposta do desejo a contextos emocionais, vínculos e experiências. Não é que a pessoa estivesse fingindo antes, mas que o desejo não é uma estátua de mármore; ele pode ser mais parecido com uma planta que cresce em direção à luz disponível. 

Há também um fator existencial profundo ligado ao luto. A morte de um parceiro de longa data provoca não apenas tristeza, mas uma desorganização da identidade. A filósofa Simone de Beauvoir escreveu, em “A Velhice”, que o envelhecimento e a perda obrigam o indivíduo a reconstruir a própria posição no mundo. A viúva deixa de ser esposa, e isso não é apenas uma mudança de estado civil, mas uma mudança de papel social, de rotina, de espelho emocional. Nesse espaço de reconstrução, muitas pessoas se permitem experimentar aspectos de si mesmas que antes estavam adormecidos.

Outro autor interessante para pensar esse fenômeno é Michel Foucault. Ele argumentava que as categorias de identidade sexual, como “heterossexual” e “homossexual”, são construções históricas relativamente recentes. Antes do século XIX, as pessoas eram julgadas mais pelos atos do que por uma identidade fixa. Foucault sugeria que, quando passamos a classificar pessoas de forma rígida, começamos a esperar que elas permaneçam coerentes com esse rótulo por toda a vida. Quando alguém muda, sentimos estranhamento, mas esse estranhamento talvez diga mais sobre nossas categorias do que sobre a pessoa em si. 

Existe ainda uma dimensão emocional delicada: algumas mulheres relatam que seus casamentos foram felizes e amorosos, mesmo que depois tenham se apaixonado por outra mulher. Isso desafia a ideia de que só se pode amar um gênero de forma “verdadeira”. O psicanalista Donald Winnicott falava da importância de um ambiente que permita ao indivíduo ser “verdadeiro consigo mesmo”. Em certos contextos, a pessoa consegue viver uma parte autêntica de si, mas não todas. Só mais tarde, em novas circunstâncias, outras partes ganham espaço para existir.

Também não se pode ignorar o papel das mudanças sociais. Nas últimas décadas, a visibilidade e a aceitação de relações entre mulheres aumentaram em muitos lugares. Isso cria um efeito de espelho social, quando vemos outras pessoas vivendo algo, percebemos que aquilo também é uma possibilidade para nós. O sociólogo Peter Berger descreveu a sociedade como um processo de construção social da realidade, onde o que é considerado possível ou impossível depende do mundo simbólico ao nosso redor.

Portanto, quando uma mulher viúva de um casamento longo passa a se relacionar com mulheres, não existe uma explicação única e definitiva. Pode ter havido desejos antigos nunca reconhecidos, pode ter ocorrido uma mudança gradual na orientação, pode ter sido uma descoberta despertada por um vínculo específico, ou simplesmente uma liberdade que só chegou depois de décadas de papéis rígidos. Em muitos casos, é uma mistura de tudo isso, uma espécie de mosaico emocional montado ao longo de uma vida inteira. 

Talvez a pergunta mais profunda não seja “ela já era antes ou virou depois?”, mas sim: por que esperamos que as pessoas permaneçam exatamente as mesmas do início ao fim da vida? 

A experiência humana é menos uma linha reta e mais um rio que muda de curso conforme encontra novas pedras, novas margens e novas chuvas. E, às vezes, só depois de uma grande perda é que alguém descobre que existiam outros caminhos possíveis para a real felicidade. Por isso, cada um sabe o que é melhor para si, como já alertava Freud. Se despir dos julgamentos, dos preconceitos e da moralidade social é o melhor caminho. A aceitação é saber lidar com isso e respeitar as pessoas na sua totalidade, diferenças e escolhas. Não queira julgar a sua mãe, queira entendê-la e abrace suas novas nuances. O relacionamento poderá ser muito melhor agora do que já foi um dia… Ame sem pudores ou recalques, esse é o verdadeiro amor… aceite o outro como ele é.  Infelizmente, num mundo machista, sexista, e cheio de ódio e homofobia, eu sei qual é a sua preocupação… mas se a sua mãe escolheu viver assim, é porque pra ela faz sentido… deixa ela ser feliz! Certas loucuras, a pessoa só tem coragem de enfrentar com muita bagagem de vida, vontade de ser feliz e maturidade.  A vida é curta meu bem, a vida é muito curta… E que cada um cuide de sua própria vida… e sem preconceitos ou julgamentos!

 O que você escolheria? Sua mãe infeliz ou feliz por estar vivendo um momento que escolheu para si? Repense sobre isso. 😘😉

Meu conselho sincero para todos: Nunca perca a sua essência, a vida é sobre quem você é, e jamais o que pensam sobre você… O segredo da saúde mental é ser você mesmo, a prisão, é querer ser quem você não é e ficar se comparando aos outros… vai viver e ser feliz! As diferenças tornam a vida mais bonita e colorida! 🫶🏻

Obs.:Quanto mais polêmico for um tema, mais eu vejo a necessidade de trazer um embasamento teórico para vocês. Não pense vocês, que é fácil elaborar assim um tema tão complexo e cheio de tabus, sinto que esse é um tema inesgotável e que vai da particularidade de cada um, aqui são apenas suposições e conjecturas. Não tem como eu afirmar algo, sem conhecer a pessoa. Que fique muito claro isso. 😘