Outro dia eu ouvi: “eu como demais e não consigo me controlar, às vezes quero comer tudo o que está na geladeira. Não consigo comer duas bolachas, preciso comer o pacote todo. Não consigo comer um pedaço de bolo, como 4 pedaços e por aí vai… o que preciso saber para me controlar? Como posso me policiar?”
Se esse também é o seu caso, vem! 😉 Vou tentar explicar, mas saiba que isso, na maioria das vezes é um comportamento aprendido. Por exemplo, em muitas famílias, amor não foi dito, foi servido.
“Come mais um pouco” significava cuidado.
Sobremesa virava recompensa.
Comer junto era o único momento de conexão com a família.
A criança aprende cedo que comida é afeto, presença e segurança. O corpo cresce, mas o código emocional fica. Quando faltou validação, escuta, um olhar mais acolhedor ou previsibilidade emocional, a comida entrou como substituta. Ela não rejeita, não abandona, não julga. Está sempre disponível. Para quem viveu carência, isso é ouro emocional. Lares com brigas, silêncio, tensão, críticas constantes ou imprevisibilidade criam um estado interno de alerta. E o comer ajuda a regular esse caos. Comer traz aconchego, prazer, gera dopamina no nosso cérebro, e dependendo, faz você repetir mais e mais esse comportamento. Mastigar acalma, o doce conforta, o estômago cheio anestesia. Não é exagero: é autorregulação emocional. Já pensou nisso? Em famílias muito controladoras ou invasivas, a comida pode ter sido o único território próprio. Comer escondido, exagerar ou escolher o que ninguém aprovava vira um gesto silencioso de autonomia. Quando o afeto vem com regras invisíveis (“se você emagrecer, você vai ficar melhor” ou “você será linda quando emagrecer” essas palavras machucam e a comida vira inimiga e refúgio ao mesmo tempo. Surge a dinâmica clássica: restrição, compulsão, culpa. Um triângulo emocional, não nutricional. Na vida adulta, o corpo pede comida, mas quem está faminta é uma parte antiga, a sua criança interior ferida pedindo acolhimento, descanso, validação, escuta ou permissão para existir sem desempenho. Só quer ser aceita, amada, ouvida e acolhida do jeito que é, sem exigências externas ou por padrões de beleza.
O que te aconselho: buscar uma terapia para revisitar esses lugares de fissuras emocionais que ainda podem estar abertos para se auto conhecer e entender esses processos internos que te levam sempre para o mesmo lugar, que é a comida. Para você poder desenvolver outras formas de regulação emocional e construir autoacolhimento, não autocontrole. E revisar a história familiar sem acusação, mas com lucidez e aprender a diferenciar fome emocional de necessidade emocional. Quando as necessidades internas emocionais ganham nome e espaço, a comida deixa de carregar um peso que nunca foi dela, e passa a se regular por si só. Não se trata de “parar de comer”, mas de parar de usar a comida como único recurso emocional.
Quanto mais recursos você constrói, menos a comida precisa gritar. Entende? Cria-se outras estratégias para saciar a “fome”. Toda vez que quiser comer mesmo, perceba se a sua barriga está fazendo aquele barulhinho, por que se não estiver, pode apostar que não é fome… é uma fome emocional. Ou pergunte-se: meu estômago está realmente vazio? Estou me sentindo fraca? Preciso comer agora? E aí pergunte-se de novo: de onde está vindo essa vontade? Respire fundo e reflita. Como está sendo meu dia? O que aconteceu minutos atrás? E perceba se você está querendo alguma coisa para te trazer algum alívio imediato. O ideal é não ter tantas coisas gostosas ou guloseimas dentro de casa. Evitar comprá-las. Pois, quando bater aquela fome mesmo, você vai recorrer a coisas mais saudáveis. Uma fruta, por exemplo. Ou uma vitamina de frutas. Ou um suco. Criar novas estratégias, para o seu cérebro ir se adaptando a outros alimentos. Por exemplo, comer uma enorme quantidade de morangos, ou melancia ou melão, por exemplo, não vai fazer tanto estrago no seu organismo, mas se você comer um bolo inteiro, ou um pote de sorvete, sim. Então, fazer escolhas mais saudáveis é fundamental para a sua saúde.
Passeios leves ao ar livre, como uma caminhada ou um mergulho numa piscina, um passeio de bicicleta. Ah, a respiração diafragmática pode ajudar.
A respiração diafragmática é uma forma simples e poderosa de dizer ao corpo: “o perigo passou”
Ela conversa direto com o sistema nervoso, especialmente quando a comida virou um calmante emocional.
É a respiração que usa o diafragma, o músculo abaixo dos pulmões.
O ar desce, a barriga se expande, o peito quase não se mexe.
Bebês respiram assim. Adultos reaprendem.
Por que ela ajuda emocionalmente: ativa o sistema parassimpático (estado de calma), reduz ansiedade e impulsividade, diminui a urgência por comida como anestesia, melhora a percepção de fome real x fome emocional.
Como fazer (passo a passo): sente-se ou deite-se confortavelmente. Coloque uma mão no peito e outra na barriga. Inspire pelo nariz por 4 segundos, sentindo a barriga subir. Segure o ar por 1–2 segundos. Expire lentamente pela boca por 6 segundos, como se apagasse uma vela. Repita por 3 a 5 minutos.
Eu poderia aprofundar mais nessa questão? Sim, com certeza, mas se soubesse mais detalhes da sua dinâmica familiar, da sua infância, etc., pois cada caso, é único e cada contexto demanda uma nova forma de pensar e ajustar sentimentos e emoções em relação a isso. A compulsão alimentar aparece quando algo em você pede ajuda. Ela não chega com explicações, chega com urgência. Comer, nesse momento, não é exagero nem fraqueza. É a forma que o seu corpo encontra para acalmar, para diminuir a dor, diminuir ansiedade, o conflito interno, para sustentar um peso que ficou grande demais. O alívio que vem é real, mesmo que seja breve. Depois, talvez surja a culpa, a vergonha, como se você tivesse falhado, quando na verdade estava tentando se proteger do que sentia. Talvez o caminho não seja lutar contra a compulsão, mas escutá-la com mais gentileza. Perguntar o que estava difícil antes dela aparecer. Reconhecer que você merece cuidado e que, pouco a pouco, pode aprender outras formas de se acolher, sem precisar se ferir depois.
Ao sentar à mesa vá mais consciente, tente fazer escolhas mais saudáveis, comece respirando mais e mastigue devagar. Esteja presente, evite comer rapidamente ou fazer outras coisas junto, como por exemplo: mexer no celular, ou comer e assistir tv, ou pensar em outras coisas. Coma com paz e tranquilidade, isso âncora você no presente. É importante levar esse aviso para o nosso cérebro. Nada disso é solução mágica. É prática. Alguns dias o barco balança menos, outros mais. O objetivo não é perfeição, é retornar para si mesmo. E voltar ao agora, quantas vezes for preciso. Nada de ficar no passado e muito menos lá no futuro. Talvez o caminho não seja lutar contra a compulsão, mas escutá-la com mais atenção. Reflita sobre isso: na compulsão alimentar, o corpo come o que a alma não conseguiu dizer ou expressar. E veja se isso faz sentido para você!
Bjs no coração, vou ficando por aqui, se cuida minha linda! Se estiver muito difícil, busque ajuda especializada, ok? Porém, saiba que todo ser humano tem a sua beleza única e quero muito que você descubra a sua, saindo desses padrões impostos pela sociedade na qual vivemos. Combinado? Fica bem e esteja em paz! 💗
E quando estava terminando esse texto, veio essa música na minha cabeça, pois fala dos nossos desejos, vontades e insatisfações… “Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?”