Olá meus amores! Bom dia, feliz sexta-feira!
“Por que algumas pessoas atraem relacionamentos tóxicos?” Outro dia, me fizeram essa pergunta, e vamos pensar juntos?
Eu não diria que algumas pessoas atraem relacionamentos tóxicos, porque todo relacionamento no início é muito bom e envolvente, se não for assim, as pessoas não ficam, elas vão embora. Eu diria que quando uma pessoa “acorda ou percebe” que está num relacionamento tóxico, já está bem apaixonada, ou seja, estabeleceu-se um vínculo afetivo e daí em diante, fica mais difícil se desvencilhar desse contexto.
As pessoas raramente entram em um relacionamento tóxico como quem entra em um lugar perigoso com um aviso luminoso piscando. Na maior parte das vezes, o que se apresenta no início é um território fértil de afeto, atenção e promessas. A toxicidade não surge como um terremoto, mas como uma erosão, silenciosa, gradual, quase imperceptível. Compreender por que tantas pessoas permanecem nesses vínculos exige olhar para a psicologia dos relacionamentos e, sobretudo, para as camadas emocionais que moldam o indivíduo e seu comportamento. Não há só perdas, mas também ganhos por trás dos bastidores. Entender isso é fundamental. Não vou explicitar isso hoje, mas pode ter muita coisa em jogo… medo da solidão, dependência emocional, crenças limitantes, falta de ânimo e coragem, insegurança, autossabotagem, autoestima fragilizada, comodismo, nossa, a lista de motivos para ficar, pode ser bem mais extensa e complexa, do que os motivos para desistir… enfim. Cada um com o seu cada qual…
Um dos fatores centrais é o vínculo emocional. O cérebro humano é profundamente sensível à recompensa afetiva. Momentos de carinho intercalados com episódios de dor criam um ciclo semelhante ao reforço intermitente, um mecanismo poderoso de condicionamento psicológico. A pessoa não permanece apenas pelo sofrimento, mas pela esperança de reviver os raros instantes de conexão que, por contraste, parecem ainda mais intensos. O afeto vira moeda escassa e, justamente por isso, valiosa.
Um elemento crucial é a autoestima fragilizada. Indivíduos que cresceram em ambientes onde amor e instabilidade coexistiam podem confundir controle com cuidado e agressividade com intensidade emocional. Quando alguém internaliza a ideia de que precisa “merecer” amor, passa a tolerar comportamentos abusivos como se fossem provas de resistência ou lealdade. A toxicidade, nesse cenário, não soa como alarme, mas como confirmação de crenças antigas sobre si mesmo.
Há também o papel do medo da solidão. Para muitas pessoas, o vazio de estar só, parece mais ameaçador, do que a dor conhecida de um relacionamento disfuncional. O cérebro prefere o território familiar, mesmo que hostil, ao desconhecido. Assim, o relacionamento tóxico, se torna uma espécie de jaula conhecida, desconfortável, mas previsível. A saída exige não apenas coragem emocional, mas a reconstrução da própria identidade fora daquele vínculo.
A normalização do abuso é outro aspecto psicológico relevante. Pequenas violências, quando repetidas, perdem o impacto inicial. O que antes causava choque passa a ser minimizado, racionalizado ou justificado. “Não foi tão grave assim”, “ele estava estressado”, “eu também errei”. A mente, cria narrativas que tornam o intolerável suportável. Esse mecanismo de defesa protege no curto prazo, mas aprisiona no longo.
Além disso, existe a ilusão de controle e mudança. Muitas pessoas acreditam que, se agirem de maneira diferente, o outro também mudará. Essa crença alimenta a permanência, pois transforma o relacionamento em um projeto de salvação. O problema é que essa lógica desloca a responsabilidade, fazendo com que a vítima se sinta culpada pela continuidade do sofrimento, e vai se anulando cada dia mais por causa do outro, como se amar fosse um exercício constante de autocorreção e distanciamento de si mesmo.
Romper esse ciclo exige mais do que força de vontade, exige consciência, apoio e, muitas vezes, um reaprendizado profundo sobre o que é amor. Um amor que não adoece, não diminui e não exige que alguém se perca ou faça sacrifício para que o outro fique.
Eu até gosto de fazer um paralelo com a Síndrome de Estocolmo, apesar de não estar nos manuais de psicologia e psiquiatria, esse termo surgiu em 1973, num assalto a banco em Estocolmo, onde reféns, depois de dias sob ameaça, passaram a defender os sequestradores e a desconfiar da polícia. Desde então, o conceito passou a ser usado para explicar reações semelhantes em outros contextos, como sequestros, abusos, violência doméstica, ambientes de trabalho abusivos e relacionamentos tóxicos. Na Síndrome de Estocolmo, há uma ameaça explícita e imediata. Nos relacionamentos tóxicos, a ameaça é mais sutil, mas constante: abandono, humilhação, rejeição, perda de identidade. Sair exige romper não só com a pessoa, mas com a narrativa interna construída para sobreviver. É como desmontar uma casa que foi feita para aguentar um terremoto, mesmo que ela agora esteja desabando lentamente.
O efeito psicológico pode ser muito parecido.
Relacionamentos tóxicos sobrevivem porque tocam feridas que já existiam antes do encontro. Eles não se sustentam apenas pelo abuso, mas pela promessa silenciosa de que, se a dor fizer sentido, ela um dia será recompensada. No entanto, nenhum amor verdadeiro exige a anulação de quem se é. Quando permanecer significa encolher-se, silenciar-se ou fragmentar-se, já não se trata de vínculo e nem de amor, mas de algo bem tóxico e que num longo prazo, a pessoa pode não aguentar.
Nesses casos, romper com um relacionamento é um ato de coragem e lucidez, é escolher o desconforto da liberdade em vez do conforto da dor conhecida, e reconhecer-se que amar nunca deveria custar a própria integridade.
Muitos não conseguem fazer esse movimento sozinhos, por isso que um grupo de apoio ou uma terapia seriam ideais, pois hoje sabemos que todo relacionamento tóxico é como um vício, há pessoas que se sentem presas em certos padrões de comportamentos nocivos, então, elas mesmas precisam ter consciência que isso é nocivo, se elas não fizerem um esforço, nada acontece. Elas precisam sair dessa situação que aprisiona. E por incrível que pareça, muitos escolhem viver assim, nesse comodismo do que fazer uma revolução na própria vida.
A mudança nunca é de fora para dentro, e sim de dentro para fora. Libertar-se dos grilhões é um parto psicológico… ou seja, pede um refazimento psíquico e uma escolha inadiável e individual. Você não avança se não abrir mão de alguma coisa.
Não escolher, também é uma escolha. Ou seja, mesmo a inação ou a indecisão ou a omissão, atuam como uma decisão ativa, podendo resultar em consequências desastrosas, porque as oportunidades estão aí e não esperam você decidir, elas simplesmente passam.
Portanto, eu não diria que as pessoas “atraem” relacionamentos tóxicos, mas muitas vezes elas só irão desenvolver algumas virtudes, através desses relacionamentos conflituosos, para estimular nelas mesmas certas habilidades, como: discernimento, autoconhecimento, limites, prioridades, coragem, amor-próprio, autoconfiança, responsabilidade… etc. Através dos conflitos nós aprimoramos internamente, então, nada é por acaso, tudo tem uma explicação plausível. Basta querer entender essas dinâmicas por um outro ângulo. Pois ninguém sai da tempestade do mesmo jeito que entrou, há mudanças de padrões internos, há crescimento e há transformação. Todavia, tem coisas que só vamos entender depois de muita maturidade. E esse autoconhecimento é capaz de gerar uma vida preenchida de paz, significado, aceitação e bem-estar. Há um propósito maior, por trás de tudo aquilo que aparentemente “atraímos” para as nossas vidas. Em tudo o que nos acontece, podemos desenvolver um novo olhar e um grande aprendizado.
Bjs, vou ficando por aqui! 😉
