Carta para meu “eu do passado e carta para meu “eu do futuro”…
Para o meu “eu do passado”…
Eu penso em você às vezes. Não como quem abre um álbum antigo de fotografias, mas como quem encontra uma chave no bolso e não lembra mais qual porta ela abriria.
Que saudade de você.
Saudade daquele jeito meio desajeitada de existir, meiga, doce, tímida. Você não sabia quase nada da vida, mas sentia tudo como se cada emoção tivesse no volume máximo. Chorava por coisas pequenas, amava cedo demais, confiava demais, se entregava demais, ofertava demais, ria alto demais. E, sem perceber, isso era uma espécie de coragem.
Não estava nem aí para saber o que os outros falavam ou pensavam ao seu respeito. Sempre quis ser você mesma. Odiava imitação barata, queria ser somente você!
Seu caminho sempre foi ser feliz.
Muitas vezes saía sozinha e não tinha vergonha de fazer amizades, essa sempre foi uma necessidade sua, conversar…
Eu queria te contar que sobreviver não foi tão elegante, quanto parecia nos planos.
Teve trauma. Não daqueles que chegam anunciados, com trilha sonora dramática. Vieram silenciosos, vestidos de rotina. Algumas palavras ficaram ecoando mais tempo do que deveriam. Algumas dores e ausências criaram quartos inteiros dentro da gente. Aprendemos a chamar de maturidade certas formas de defesa que nasceram só para continuar funcionando.
E teve amor.
Os que existiram e os que quase existiram.
Ainda penso em algumas pessoas como quem olha uma estação pela janela do trem: dava para descer ali, dava para construir alguma coisa ali. Mas o trem passou. Às vezes, porque era cedo demais. Às vezes, tarde demais. Às vezes, porque ninguém teve coragem suficiente para dizer: “fica”.
Existem amores que não acabam, porque nunca começaram.
E eles também deixam saudade. Saudade daquele sorriso. Saudade daquele menino correndo atrás de você no pátio da escola. Lembra quando ele pintou o nome dele e o seu na camiseta? E saiu desfilando pelo colégio? rsrs Você ficou com tanto ódio dele, mas por trás daquele ódio tinha tanto amor, mas você nem sabia disso… só depois de muito tempo que você foi entender… você era muito nova para entender essas coisas.
E a juventude…
Meu Deus, a juventude.
Que coisa caótica e bonita.
A gente achava que dormir pouco era personalidade. Que pegar ônibus sem destino era aventura. Que o corpo era infinito. Que as amizades eram para sempre. Algumas são, outras, não. Que o amor sempre encontrava caminho. Que o tempo andava de bicicleta.
Saudade das conversas imaginadas, das mensagens nunca enviadas, dos futuros que ficaram estacionados num universo paralelo qualquer.
Também queria te avisar: algumas pessoas vão embora sem pedir licença.
E você vai descobrir que luto não é só enterro.
É ouvir uma música e perceber que não existe mais para quem mandar. É querer contar uma notícia e lembrar que aquele número não atende mais. É rir sozinha, porque alguém teria entendido aquela piada.
Tem gente que continua existindo dentro da gente como uma cidade submersa: invisível, mas inteira.
E olha só.
O tempo corre.
Hoje eu entendo que aquela vida doida não era desorganização. Era abundância. Era o mundo ainda sem legenda.
Sinto falta de quando tudo parecia inaugural. Do frio na barriga antes de sair de casa. Das noites que terminavam em conversa na calçada. Dos planos e dos sonhos que nunca se realizaram.
Mas queria que você soubesse uma coisa, Cris…
Apesar de tudo que perdemos, apesar das versões de nós que ficaram pelo caminho… eu ainda carrego você.
Nos gostos que sobraram. Nas músicas repetidas. Nos impulsos sem explicação. Na mania de olhar o céu quando está estranho. Em certas risadas que continuam iguais, dentro de você, tudo ainda permanece intenso, intacto, sereno e com alma. Eu sei que muitas vezes você se decepcionou, mas também sei que muitas vezes você se segurou para não rir demais, sentir demais, ser intensa demais… Mas apesar de tudo, o mais importante é que você foi e continua sendo feliz e vai ficar tudo bem…
Para o “eu do futuro”…
Cris, se você estiver lendo isso, significa que o tempo fez o que sempre prometeu fazer: continuou.
Antes de começarmos, me conta uma coisa.
Você aprendeu a descansar sem culpa?
Porque daqui, deste lado da estrada, ainda existe essa mania estranha de transformar cada sonho em meta, cada silêncio em atraso, cada dia comum numa cobrança disfarçada.
Espero que você tenha desaprendido um pouco disso.
Espero que tenha entendido que viver não é um currículo.
Queria perguntar também se você ainda lembra de quem éramos.
Não dos fatos grandes. Não dos aniversários, empregos, mudanças de casa, das viagens. Não!
Quero saber se você ainda lembra das pequenas coisas. Daquelas que aquecem o coração.
Se ainda desacelera quando o céu fica aquele laranja específico do fim de tarde.
Se ainda escuta músicas antigas para visitar versões suas que já não existem mais.
Se ainda fala sozinha no banho e no espelho.
Se ainda guarda conversas, olhares e sensações que ficaram como tatuagens na sua alma.
Espero que sim.
Porque tenho medo de que amadurecer demais seja uma forma elegante de esquecer.
Me conta também sobre os traumas.
Eles viraram cicatrizes ou decoração?
Você conseguiu parar de pedir desculpa por ocupar espaço?
Conseguiu entender que sobreviver não é o mesmo que viver?
Que nem toda dureza é maturidade?
Eu espero que você tenha feito as pazes com algumas dores do seu passado.
E os amores?
Você teve coragem?
Não estou perguntando se deu certo.
Estou perguntando se você disse tudo?
Se ficou quando queria ficar?
Se foi embora quando precisava ir?
Espero que tenha amado sem reservas. Sem medo e sem tentar prever o final das relações. Com afeto, verdade beleza, sem tantas preocupações, de como quem guarda dinheiro para um desastre, que talvez nunca venha.
E sobre quem já se foi… Ainda ora e agradece?
Você ainda conversa com eles em pensamento?
Espero que sim.
Tem gente que parte e vira constelação: não toca mais a terra, mas continua ajudando a gente a encontrar direção.
Espero que você tenha aprendido que seguir em frente, não significa deixar para trás.
Agora uma pergunta importante:
Você ficou parecido com quem imaginava?
Porque eu suspeito que não.
Espero que tenha se tornado alguém que seu eu do futuro se orgulhe.
Alguém mais leve.
Mais gentil. Empática. Que se importa com os outros e suas dores, e que nunca vai deixar a indiferença tomar conta de você, em hipótese alguma, pois essa dor, te marcou profundamente, num momento distante.
Você merece o melhor da vida, e o melhor das pessoas. Nunca esqueça disso.
Espero que você durma tranquila.
E comece de novo, se precisar.
Só me promete uma coisa: não abandone completamente a nossa capacidade de se encantar pela vida. Pelo pôr do sol, pelo céu, pelo mar, pelas flores, os pássaros, pelas pessoas que estão ao seu lado e te amam verdadeiramente, pela simplicidade da sua rotina, enfim… por tudo que aquece a sua alma.
Ainda compra um livro sem necessidade, eu sei, mas você gosta.
Quase chora toda vez que escuta o hino nacional, dá um nó na sua garganta… eu sei. Você continua disfarçando muito bem.
Também não pode passar na frente de uma sorveteria, que já quer tomar um sorvetinho, nos dias de verão.
Também adora uma conexão aérea e fazer planos de viagens.
Ainda anda sem destino de vez em quando por aí, só para ouvir suas músicas preferidas. Estrada e música é uma combinação perfeita.
Ainda olha pela janela.
Ainda acredita em alguma coisa.
E se um dia sentir saudade de mim… saiba que daqui, deste instante exato, eu já estou com saudade de você.
Meus últimos conselhos para você me encontrar bem… exercite mais seu corpo, coma menos porcarias, beba com moderação, tome mais água, ria mais, esteja mais presente no aqui e agora, não se preocupe com o futuro demasiadamente, esteja perto daqueles que te fazem bem, ore mais, agradeça mais, medite e tire alguns minutos para contemplar o belo. Ame muito, sem medo. Divirta-se mais com a sua família. O tempo passa tão rápido, aproveite a sua jornada. Deus sabe o que é o melhor para você…
Com esperança,
de quem ainda está tentando te encontrar bem, com saúde, alegria e paz. 🫶🏻
Tenho muito amor por você menina! ❤️
Seu eu do futuro.