Outro dia me falaram: “Cristiane a minha amiga está casada há trinta anos, tem filhos crescidos e já é avó. Encontrei com ela numa festa de aniversário e ela estava desabafando com todo mundo que via na sua frente, que são nossos outros amigos também, sobre a traição do marido dela. Como posso ajudá-la? Eu não achei adequado o que ela fez… sair contando para todo mundo, a sua vida íntima…”
Olá minha querida, vamos conversar? Às vezes a pessoa está tão fragilizada, tão triste e sensível, que tem necessidade de dividir essa dor, pois a emoção fica grande demais pra caber dentro do peito. Traição, humilhação, choque… isso bagunça tudo. O cérebro entra quase em modo de emergência, colapso e falar vira uma forma de aliviar a pressão. Não é estratégia social, é válvula de escape. Muitas vezes, ela só quer sentir-se acolhida, escutada e sentir que é amada. Quando algo fere muito, tem gente que procura confirmação fora, como quem acende várias luzes pra ter certeza do caminho. Ser traída, por exemplo, tira o controle da própria história. Ao contar pra todo mundo, a pessoa tenta retomar a narrativa, tipo: “isso aconteceu comigo, e eu não vou esconder”. Às vezes, ela não tem um espaço seguro e específico para desabafar. Então, fala com quem estiver por perto. Melhor um público imperfeito do que um silêncio sufocante. Tenha compaixão, e entenda que não é todo mundo que consegue lidar com essa “bomba” com discrição, equilíbrio e discernimento. Uns sim, outros, não. Eu também sei, que o mais indicado seria lavar essa “roupa suja” em casa, sem holofotes, mas não é todo mundo que tem inteligência emocional e estrutura psíquica para aguentar. Ela está em choque e fragilizada, pois convenhamos, trinta anos de casamento, não é para qualquer um, houve uma ruptura dentro dela significativa, nada voltará a ser como era antes… seu mundo desabou, ela deve estar no limbo e sem saber o que fazer agora, pois tudo aquilo que ela acreditava ruiu diante dos seus olhos… a dor é imensa, voltar a conviver e a confiar no outro, depois de tudo isso… só o tempo que dirá. Nem todo mundo consegue segurar emoções intensas em público. Algumas pessoas são mais “externas”, processam falando. Outras são mais “internas”, processam em silêncio a dor. Nenhuma é melhor que a outra, só são diferentes, da forma que reagem. Agora, sendo bem direta contigo: isso pode não ser a forma mais saudável ou estratégica de lidar, e pode trazer consequências sociais para ela. Mas, naquele momento, não é sobre escolher bem, é sobre sobreviver emocionalmente. Se você olhar por esse ângulo, muda a lente: em vez de: “por que ela fez isso?”, pense em: “o quanto isso deve ter doído pra ela perder o filtro assim?”. Entende, como fica mais fácil em aceitar essa atitude dela?
E isso não impede você de ajudá-la a encontrar formas mais seguras de desabafar. Quem sabe, procurar uma ajuda especializada, um grupo de apoio, para aliviar essa dor e esse trauma. A pior decepção é que você nunca espera da onde vem, e às vezes vem da pessoa que você mais confia e ama. Então, até ela conseguir processar e ressignificar tudo isso, demandará um tempo, e às vezes, um longo tempo. Há marcas que não se apagam, nem com o tempo, porque ficam impressas na alma. Ontem mesmo, ouvi uma história tão linda… triste, mas linda… uma senhora disse, que ela não nasceu lésbica, ela tornou-se lésbica, pelas decepções amorosas, uma atrás da outra, que ela teve com os homens. Ela namorava um rapaz e ficou grávida dele, isso já tem… uns 25 anos, (eu posso falar abertamente, porque ela quer que eu escreva sobre isso), quando o rapaz soube da gravidez dela, ele confessou para ela, que não poderia assumir a criança, porque ele era casado e já tinha filhos. Seu mundo desabou, primeiro: ela não imaginava que ele fosse casado, e muito menos que tivesse filhos e que ela tinha virado amante… E depois da notícia da gravidez, ele desapareceu. Ela nunca mais soube dele. Aquilo para ela foi um choque-trauma… ela criou o filho sozinha, enfim. Cada um com uma história triste e diferente para contar. Porém, o tempo meu amor, resolve tudo ou quase tudo. Não se preocupe com a sua amiga, por mais que seja difícil e doloroso agora, ela vai saber lidar com isso e tirar preciosas lições de tudo que lhe aconteceu. E isso, também passa. Essa senhora, que acabei de citar, hoje, ela está casada com um homem, (mas ela foi lésbica durante muitos anos), voltou a ser feliz e hoje, ela olha para trás com gratidão. Porque se ela não tivesse passado por tudo o que ela passou, ela também não seria quem ela é hoje. Uma mulher valente, cheia de vida e com alegria. Então, o caminho para a felicidade dela, foi perdoar o pai de seu filho. Se curar de todas as mágoas e dores do passado. Essa libertação, a trouxe de volta para si mesma, ela parou de fugir de si, de se vitimizar e entendeu que ela mesma é a protagonista da sua história, a única responsável pela sua vida e pela sua felicidade. Entende? Estou falando isso, porque são histórias reais, com pessoas reais e exemplos bonitos para citar. Se cada um conseguir carregar a sua própria dor com resignação, indulgência, sem grandes tempestades externas, e aceitação da realidade como ela é… talvez consiga sair mais rápido dessa tempestade. É fácil? Nunca foi e nunca será, mas depende de cada um, não entrar na autocomiseração. Não adianta humilhar, difamar ou caluniar o outro pelo erro cometido, isso é tão ruim para si mesmo, pois o pior já aconteceu e nada vai mudar o presente… O melhor a fazer é seguir em frente e continuar. Qual o melhor caminho que ela vai escolher, será por sua conta e risco. Os dois serão difíceis… se continuar nesse casamento, talvez nunca mais dormirá em paz, porque cada saída do marido, virá na mente uma desconfiança… e se decidir ir embora, terá que acostumar com a nova vida… nenhuma escolha será fácil. Quem poderá julgá-la? Ninguém… Que ela escolha o que for melhor para si… Toda decisão precisa de uma certa honestidade consigo mesma. “Serei ainda feliz com essa pessoa, depois de tudo que aconteceu?” “Conseguirei perdoar, de coração aberto, sem voltar nisso depois?” “Terei condições psíquicas em retornar de onde paramos?” “Estou pronta para viver uma nova vida, de agora em diante?” São questões que não podem ser adiadas. E você pode ser sincera com a sua amiga e falar para ela que quando ela quiser desabafar, que ela pode contar com você, que as pessoas não precisam saber detalhes da vida conjugal dela. E diga para a sua amiga, que a melhor vingança é nenhuma. Que agora, ela precisa se curar, procurar um grupo de apoio, se possível, ou uma terapia e não tornar-se igual a quem lhe feriu ou lhe machucou. Seguir em frente e focar em outras coisas, é o melhor caminho… Tem uma frase que eu levo para a minha vida: “quanto menos pessoas souberem da sua vida, mais feliz você será.” Se você não souber o que dizer para ela, uma dica: “Amiga, eu sei que está doendo muito, e você não precisa resolver sua vida agora. Tire uns dias para pensar. Não tome nenhuma decisão precipitada. Só tenta cuidar de você e pensar no que você merece de verdade. Eu estou aqui pra qualquer coisa. Quando quiser desabafar, pode me ligar e marcamos um café.” Não julgar e estar disposta a ouvi-la é tudo o que você pode fazer. Diga: “O que posso fazer para você se sentir melhor?”
Uma simples escuta sempre cai bem, às vezes ela só precisa falar, falar e falar sem ninguém julgar ou questioná-la… entende?
Eu nunca me esqueci de um casamento que eu fui com os meus pais quando eu era adolescente, eu devia ter uns 15/16 anos. Uma senhora bonita e elegante sentou na nossa mesa, e nós três ficamos o casamento inteirinho ouvindo ela falar, eu me lembro como se fosse hoje, nós sentamos numa mesa, ao lado da piscina, um lugar bem tranquilo, longe do burburinho e ela contou sua história de vida… ela era viúva, divorciada e o ex marido dela foi assassinado, mas ela contou das amantes dele, dos filhos que ela teve com ele… da vida dela… Eu nunca me esqueci. Quanto mais ela falava, mais eu ficava encantada com a história de vida dela… ela era muito magnética, chique e elegante, me lembrava até a Clarice Lispector na aparência… rsrs Ela era uma pessoa cativante de ouvir. O que estou querendo te dizer com isso? Que o que foi um incômodo para você, talvez tenha sido uma noite muito agradável e enriquecedora para as outras pessoas, poder compartilhar essas experiências e emoções com a sua amiga. Essa senhora, por exemplo, que sentou na nossa mesa, naquela época, salvou a minha noite. Gostei muito de poder ouvi-la.
Bom, espero ter ajudado. Bjs, vou ficando por aqui! 😉🫶🏻
