A frase de Lacan, “Cada um alcança a verdade que é capaz de suportar”, não se oferece como um consolo, mas como um espelho. Ela devolve ao sujeito a responsabilidade pelo encontro com a verdade, não como algo absoluto, luminoso e pacificador, mas como uma experiência sempre parcial, atravessada por defesas, medos e desejos inconscientes.
A verdade, não é um objeto que se encontra inteiro, pronto para ser possuído. Ela se apresenta em fragmentos, lapsos, repetições, sintomas. Surge como um sussurro incômodo que desorganiza narrativas confortáveis. Por isso, suportá-la exige mais do que inteligência ou coragem moral; exige estrutura psíquica, tempo e, sobretudo, disposição para perder algo. Toda verdade cobra um preço: a queda de uma ilusão, o abalo de uma identidade, a renúncia a uma história que nós contávamos para sobreviver.
O sujeito não foge da verdade por covardia simples. Ele foge porque certas verdades ameaçam o equilíbrio que sustenta sua existência. Reconhecer um desejo proibido, admitir uma falta estrutural ou aceitar a impossibilidade de ser tudo para o outro, pode provocar uma angústia insuportável. Assim, o psiquismo cria atalhos, véus e narrativas substitutas. Não se trata de mentira consciente, mas de uma economia psíquica: o sujeito só acessa aquilo que consegue elaborar sem colapsar.
Nesse sentido, a verdade não é universal nem simultânea. Duas pessoas podem viver o mesmo acontecimento e alcançar verdades radicalmente distintas, não porque uma esteja “errada”, mas porque cada uma possui limites singulares de simbolização. O que para um é libertador, para o outro pode ser devastador. A verdade, então, não é democrática; ela é íntima, solitária e, muitas vezes, cruel.
A psicologia ilustra bem esse movimento. Um bom psicólogo, por exemplo, não entrega a verdade ao paciente como quem oferece um diagnóstico fechado. Ele a acompanha até a borda do que pode ser dito, sentido e reconhecido. Forçar uma verdade antes do tempo é tão violento quanto negá-la. O processo psicoterápico respeita esse ritmo delicado, no qual o sujeito vai, pouco a pouco, ampliando sua capacidade de suportar o que sempre esteve ali, mas permanecia recalcado.
Há algo de profundamente humano nessa limitação. Não suportar toda a verdade não é um fracasso, é uma condição. Viver exige certo grau de ilusão, de esquecimento e de não-saber. O perigo não está em não alcançar a verdade absoluta, mas em confundir nossas defesas com realidade última. Quando isso acontece, o sujeito se cristaliza, repete e sofre sem saber por quê.
Talvez a frase de Lacan nos convide a uma ética da delicadeza. Delicadeza com nós mesmos, ao reconhecer que há verdades para as quais ainda não estamos prontos. Delicadeza com o outro, ao compreender que nem toda recusa é resistência consciente, mas proteção psíquica. A verdade não se impõe como um relâmpago; ela se aproxima como uma maré lenta, respeitando o quanto cada um pode, naquele momento, sustentar sem se perder de si.
Há algo quase silencioso na maneira como a verdade se aproxima do sujeito. Ela raramente entra pela porta da frente. Prefere os desvios: um sonho que insiste, um erro de linguagem, uma escolha que se repete apesar da promessa de mudança. A verdade, nesse sentido, não grita; ela sussurra, se infiltra. E o sujeito, sem perceber, organiza sua vida inteira para não escutá-la de forma direta.
Quando Lacan afirma que cada um alcança a verdade que é capaz de suportar, ele também aponta para o fato de que o sofrimento, não nasce apenas do que é desconhecido, mas do que é conhecido demais e ainda assim recusado. Há verdades que o sujeito toca, reconhece por um instante, e logo afasta, como quem encosta a mão numa superfície quente. Esse afastamento não apaga a verdade; apenas a empurra para outra forma de expressão, geralmente mais dolorosa. O sintoma é, muitas vezes, a verdade disfarçada, vestida de angústia, compulsão ou silêncio.
Suportar a verdade não significa aceitá-la de maneira passiva ou resignada. Suportar, aqui, tem o peso de sustentar, carregar, permitir que ela tenha efeitos. Uma verdade suportada transforma. Ela desorganiza, mas também abre espaço para novas configurações psíquicas. Já a verdade insuportável, paralisa ou é convertida em sofrimento repetitivo. O sujeito fica preso a um circuito onde algo tenta ser dito, mas nunca encontra escuta suficiente.
Existe também uma dimensão de perda inevitável. Toda vez que uma verdade se revela, algo do eu ideal se rompe. Descobre-se que não somos tão coerentes, tão bons ou tão livres quanto imaginávamos. Essa fratura narcísica dói. Talvez por isso muitos prefiram a dor conhecida da repetição, à dor desconhecida da verdade. A repetição, ao menos, preserva uma certa identidade, ainda que custe caro.
Curiosamente, a verdade não se revela inteira nem mesmo quando é suportada. Ela nunca se completa. Há sempre um resto, um ponto cego, algo que escapa à simbolização. E é justamente esse resto que mantém o desejo vivo. Se toda a verdade fosse plenamente acessível, o sujeito se fecharia sobre si mesmo, como um sistema sem falhas. A incompletude não é um defeito; é o que permite o movimento psíquico, a criação, a fala.
Nesse cenário, a escuta ganha um papel ético central. Ser escutado sem julgamento, amplia a capacidade de suportar a própria verdade. Não porque o outro a suaviza, mas porque oferece um espaço onde ela pode existir sem imediata punição. Talvez por isso, a solidão torne certas verdades insuportáveis, enquanto a presença de um outro atento as torne, pouco a pouco, habitáveis.
No fundo, a frase de Lacan não fala apenas da verdade, mas do limite. Do limite do sujeito, da linguagem, do saber. Reconhecer esse limite não é um ato de fraqueza, mas de lucidez. É admitir que crescer psiquicamente não é acumular verdades, mas expandir a capacidade de conviver com aquilo que dói, que falta, e que nunca se fecha completamente. E nesse espaço aberto, instável e imperfeito, o sujeito segue vivendo, desejando e, às vezes, ousando olhar um pouco mais de perto aquilo que antes precisava evitar.
Assim, buscar a verdade não é um ato de força, mas de cuidado. Ela precisa de tempo, escuta e espaço para existir. Quando respeitamos esse ritmo, a verdade deixa de ser uma ameaça e passa a ser um instrumento de transformação. Cada passo em direção a ela, por menor que pareça, já é um movimento de amadurecimento psíquico e de maior liberdade interior.