Há uma crença silenciosa, quase teimosa, de que a vontade basta. Como se desejar fosse apertar um interruptor invisível e, pronto, o mundo obedeceria. Mas a vida raramente funciona nesse regime de comando. Querer é um impulso interno, íntimo e legítimo; poder, no entanto, exige um terreno que nem sempre está disponível.
Entre o querer e o poder existe um espaço povoado por limites. Limites do corpo, que cansa e adoece. Limites do tempo, que não se estica para acomodar todos os sonhos. Limites sociais, econômicos e históricos, que distribuem oportunidades de forma desigual, como se o jogo começasse em tabuleiros diferentes. Ignorar esses limites é confortável, mas também cruel, sobretudo quando transforma a frustração em culpa pessoal.
Isso não significa que a vontade seja inútil. Pelo contrário, ela é o motor inicial de qualquer movimento. Sem querer, nada começa. Mas querer não faz tudo dar certo. É mais parecido com uma bússola: aponta uma direção, mas não garante a travessia. O caminho depende de condições externas, de encontros, de acasos e, muitas vezes, de ajuda divina. Há sonhos que precisam de mais do que esforço; precisam de contexto.
Reconhecer que querer nem sempre é poder não é um convite à desistência, e sim à lucidez. É entender que falhar não é sinônimo de fraqueza, e que nem toda conquista adiada é falta de mérito. Às vezes, é apenas o mundo sendo maior do que a nossa força momentânea.
Talvez a maturidade esteja justamente aí: em continuar querendo, mesmo sabendo que o poder não é absoluto. Em ajustar expectativas sem amputar desejos. Em lutar quando é possível, recuar quando é necessário, e aceitar que nem tudo o que mora em nós encontrará espaço imediato para existir.
Querer nem sempre é poder, mas querer ainda é humano. E, mesmo quando não basta, é o que nos mantém em movimento, tentando outra vez, por outros caminhos, em outro tempo, sem perder as esperanças… Reconhecer isso não diminui ninguém; ao contrário, abre espaço para o crescimento. Nem todo começo de ano pede metas e objetivos, às vezes pede descanso, perdão e um recomeço interno… Pense nisso!
